A coletividade como solução

A queixa de uma costureira a respeito de uma injustiça salarial em uma fábrica mudou o futuro de 420 trabalhadoras e trabalhadores

Sem olhar para trás

Em um dia comum, a casa de Padmavathi fica repleta de sons de crianças logo pela manhã.  Conforme elas se aprontam para ir para a escola, Padmavathi se arruma para ir para a fábrica e sua irmã se prepara para cuidar da casa. Ela confere os uniformes e mochilas escolares e vai para o trabalho. 

Aos 40 anos, Padmavathi é a única, de uma família de sete, responsável pelo sustento da casa. Um acidente que ocorreu há três anos deixou seu marido acamado e, recentemente, sua irmã viúva e seus dois filhos também vieram buscar sua ajuda. Padmavathi carrega todas essas responsabilidades pessoais diariamente, além de ser uma forte representante de seu sindicato na defesa por salários justos.

Ela trabalha como costureira em uma fábrica de roupas na região industrial de Manamadi, em, Tamil Nadu, no sul da Índia. Padmavathi filiou-se ao Sindicato de Trabalhadores de Vestuário e Moda (Garment and Fashion Workers Union, GAFWU) sete anos atrás, para lutar pelos seus direitos e não olhou para trás desde então. Seja para garantir a previdência através do Conselho de Previdência Social ou para combater deduções ilegais de seu salário, o apoio do sindicato ajudou ela e seus colegas na reivindicação dos seus direitos. Urimai Kural é um sistema interativo de resposta de voz (IVRS) alimentado pela plataforma de mídia comunitária de Gram Vaani. Em 2017, Padmavathi apresentou uma queixa nessa plataforma, que foi o catalisador necessário para a mudança.
 

O IVRS para atingir trabalhadoras e trabalhadores em toda a parte

O Instituto C&A e a Gram Vaani fizeram uma parceria para desenvolver a Shramik Vaani (a voz dos trabalhadores), uma iniciativa que usa a tecnologia para fortalecer a conscientização e promover a ação coletiva entre  trabalhadores. A Gram Vaani vem construindo plataformas de mídia para capacitar as comunidades a exigir a responsabilização desde 2012. Elas usam o IVRS em telefones celulares - fáceis de usar e amplamente acessíveis em vários locais na Índia. Urimai Kural é uma das quatro plataformas ativas do IVRS nessa iniciativa. A plataforma é gerenciada pelos sindicatos - neste caso, o GAFWU. Os líderes sindicais são treinados pela Gram Vaani sobre como operar e gerenciar o IVRS para permitir uma liderança mais forte por parte do sindicato no uso da plataforma, que   ajuda a racionalizar as operações e a conectar os trabalhadores em diferentes partes do país.

Em 2017, Padmavathi apresentou uma queixa na Urimai Kural a respeito de seu salário, que acabou por trazer uma mudança positiva para todos.  O governo estadual aumentou o salário mínimo em 2014, e os empregadores se opuseram a essa decisão na justiça, levando a uma batalha jurídica que levou dois anos. A vitória foi dolorosa. Os tribunais ordenaram que as empresas pagassem o novo salário, incluindo os pagamentos em atraso, com efeito imediato e, por sua vez, decidiram cobrar uma nova dedução para o transporte fornecido pela empresa. Os trabalhadores voltaram à estaca zero.  Os salários passaram de Rs.6.000 (320 reais) para Rs.8.000 (427 reais) por mês, e o aumento estava, por sua vez, sendo deduzido para pagar o transporte. 

“Acabei ficando com 5.000 rupias na mão, mesmo sem tirar qualquer licença. Ficou difícil sustentar a minha família”, Padmavathi recorda as palavras usadas em sua queixa na Urimai Kural. A queixa foi apresentada em 10 de setembro de 2017, em nome de 420 trabalhadores que usavam o transporte da empresa a partir de sua unidade na fábrica. Esse fato, além de uma greve de um dia inteiro, garantiu a promessa da administração da fábrica de liberar novos salários, desde que os trabalhadores finalizassem a paralisação. Uma semana depois, os serviços de transporte foram cancelados. Os trabalhadores não tinham acesso a transportes públicos ou privados confiáveis para chegar ao trabalho.

A administração disse ao sindicato: “Se vocês não querem os cortes, arranjem o transporte por si mesmos”. O GAFWU reuniu evidências de que outras fábricas vizinhas estavam deduzindo muito menos do que esta e que o transporte público - mesmo que não confiável - custava apenas Rs.10 por dia. Reunindo apoio na plataforma do IVRS, o sindicato criou uma petição - assinada por 60 membros - junto ao tribunal do trabalho e abriu um processo jurídico. 
 
O tribunal regional de Kanchipuram decidiu a favor dos trabalhadores e declarou ilegais as deduções por transporte na fonte dos salários mínimos. O GAFWU acompanhou com um mandado para garantir o pagamento: dois membros do sindicato foram incumbidos de cobrar as contribuições devidas pela empresa em maio de 2019. Os trabalhadores que faziam uso do transporte fizeram um acordo com uma van compartilhada, que lhes custou um pouco mais de 1/4 dos encargos da empresa.

 

“Todos devem usar o IVRS, para que possamos saber o que está acontecendo e compartilhar com os outros”, aconselha Padmavathi. 

 

Iniciativas como a Shramik Vaani e sua plataforma Urumai Kural aproveitam o poder da tecnologia do sistema interativo de resposta de voz para identificar soluções para os problemas dos trabalhadores do setor de vestuário e usar um telefone celular básico para conectá-los na busca dessas soluções. Considerando que os sindicatos gerenciam essas linhas do IVRS, assim que essas soluções são identificadas, eles podem negociar com as respectivas administrações das fábricas de forma eficaz. Quando um trabalhador apresenta algum problema no IVRS, a força da coletividade conduz a soluções. Isso proporciona uma oportunidade para ampliar a participação dos trabalhadores na melhoria das condições de trabalho e transformar a moda em uma força para o  bem. 


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Tamil Nadu, Índia